terça-feira, outubro 10, 2006

Fortaleza e o Toque Sensual de um Tambor Tribal

Pela estrada que fica por fora, todos os caminhos me levam ao coração desta cidade que, felizmente, não é no centro. O sangue que pulsa e bombeia no frescor da lua cheia vem da veia que não envelhece nem padece de afirmação.

Fortaleza, cada vez mais o que eu sinto por você refaz as veredas que guiam o destino de um velho-menino. Ah! Cidade sem bússola, a direção certa da minha satisfação é onde eu possa expressar o meu amor cor de tambor. Em razão disso, Fortaleza, eu nem preciso dizer o que você já sabia: é na sua periferia tão maltratada que o batuque do tambor purifica a dor e instaura o meu amor question[a]dor. Daí a alegria fica ali, é um pêndulo a balançar pra lá e pra cá. É por isso que apesar das dores constantes é nos tambores que a periferia se desnuda e RECRIA O PULSAR que deve embalar o nosso dia-a-dia.

Fortaleza é à margem do seu corpo que o meu prazer vem me dizer por onde eu devo tocar em você. Nessa hora o meu amor cor de tambor, na mais completa reverência aos ancestrais, apenas flana lhe ofertando flores. O amante de antes e de natureza noturna copula e sai tocando toda epiderme que ele já conhece pela textura do sofrimento, mas que se deixa tocar sem lamentos. Quando isso acontece sei que estou penetrando no espaço mais divino de Fortaleza. A mais perfeita simbiose. A felicidade sem a qual eu não viveria. O clitóris da minha cidade fica na periferia. É por isso que eu aqui cheguei arrastado pela levada leve que soava revertendo à tristeza. Éramos eu e tu no maracatu da sutileza e aquela mesma intenção de conexão com os elementos da natureza.

Ainda encharcada de mim a cidade escorrega periferia adentro e um mar de sofrimento entra e sai pingando no suor do maracatu de amores sintonizando as vozes com os tambores. Nesse coito descomedido o gozo da cidade se mistura ao meu prazer gutural. É quando o nosso amor ribomba tal qual tambor tribal. Esse som vai bater longe, vai chamar toda a comunidade pra felicidade do ritual que congrega. Faz tempo que por aqui o tambor também soa na boca. É a festa muito louca dos meninos e o seu som da rua. PÁ-PÁ-TI-PRUM ~ PÁ-PÁ-TI-PRUM. Quem não é daqui não entendeu patavina. Isso é apenas o Maracatu Sampleado de Mateus e Catirina!

Memória oral nesse local se transforma também em sonoridade, na verdade uma revira...volta aos tempos em que os tambores falavam, conectavam, transportavam e faziam a ligação com os deuses. Não perderam essa função, apenas ganharam as mãos de uma moçada jovem que toca com tanta dignidade como se quisessem religar os desejos daquela comunidade. E são tantos e são tão críveis tais solicitações que a tríade RUM, RUMPI e LÊ fica a estremecer sem saber por onde começar.

Sinta Fortaleza agora no ar uma fragância rítmica, matematicamente certeira, tocante. Os meninos menores se aprochegam então eu já sei que toque toca agora esse maracatu de louvor: isso é um ALUJÁ de Xangô.

O povo de maracatu, em sua grande maioria, se filia a essas linhas das crenças africanas. Muito bacana a forma dessa fé que não se abala com o toque da folia, antes o contrário, se contagia e crer com muito amor, que a festa bem atesta um politeísmo criador.

segunda-feira, outubro 09, 2006

O Sol e o Sal da Singeleza no Mar de Lagoas em Fortaleza

Fortalezinha-tambor-tan-tan aguada é a cidade de Fortaleza derretendo a Lagoa Redonda toda na Praia do Preá, já quase chegando a Jericoacora. O oceano que aqui esbarra beija a doçura da Lagoa e faz da salina meizinha para muitos pesares. O sal do mar da minha cidade filtrou dores dos navios negreiros que condoeram o DRAGÃO JANGADEIRO. Fortaleza sabe e nunca negou a cor dessa dor. Embora a marca d'água que quiseram te imprimir falasse tão somente da tua semelhança com o sol. Ora minha cidade alabê, o sol e o sal estão impressos no banzo de qualquer epiderme negra. Assim como a obstinação por liberdade que gritava dentro da alma virou viga-mestra e tribalizou sentimentos distintos dos que foram traficados da África e que por aqui também aportaram.

Pois não é cidade que eu tenho a impressão de que eu toquei nessa viga. Ela tava bem ali dentro de uma construção débil, digamos assim, mas é que nem você tan-tan-zinha e a fortaleza do seu nome. E tocar, Fortaleza, eu tenho certeza, foi a maneira como o verbo por aqui se fez canção. O canto celebrando uma identidade e tocando o coração da gente desse outro lado da cidade. CANTO TRIBAL, radical, de um toque ancestral. Aí não deu outra, eu fui tocar lá onde o canto congrega; lá onde a canção potencializa vozes; lá onde a expressão comunica uma vibrante e sonora conexão com os seus mares de além mar, Fortaleza. Uma beleza! Claro, meu bem, que se tratava de um de espaço que dentro de sua cartografia fica situado no que se convencionou por chamar de periferia. Eu sabia que só podia ser por lá. E pra minha alegria entoar uma cantoria sem pesar fica pertinho do mar. E o mar em mim segreda sutilezas e traz memórias da loba no cio e sempre mãe Fortaleza.

É cidade uma paixão não se constrói à toa. Alguma coisa no fundo da alma soa feito menino em beira de lagoa. E lagoa é a Precabura que mistura o sol e o sal no mesmo quintal. Por aqui a pesca é artesanal, na verdade mais uma questão de sobrevivência dessa gente que diz não à ciência predatória. É meu bem, as semelhanças são que nem crianças, diretas e sinceras. Cada vez mais eu tenho a certeza de que é por aqui o meu caminho de volta. É só eu tocar na viga que vem da lagoa, que o povo lá no Pirambu ressoa.

domingo, outubro 08, 2006

Fortaleza e a Canção-Memória da nossa Negra História

Ah Fortaleza disfarça, pois o dia hoje passa cantante como se carregasse todas as canções suaves de fazer santo descer. É mesmo que ta vendo o mar de melodias das ondas que um dia fundiram-se num espetáculo de teatro em plena Ponte Metálica. Sim cidade-melancólica, a luz carmim que o sol cintilava era o candeeiro que iluminava a sonoridade da tua menstruação que não parava de cantar. E a maresia daquele dia que tingiu toda a companhia também nos deixou um recado: esta é uma cidade cuja verdadeira vocação é a pulsão dos amores AO SOM DOS TAMBORES.

Cidade-canção na palma da minha mão há um traço que me aponta que sou cria desse teu lado aonde a musicalidade bate mais forte que os antigos chicotes. E não há melhor espetáculo Fortaleza que a sintonia de uma periferia toda cadenciada numa levada mais tocante que o baticum do meu coração. Ouça cidade decente, escute o tan-tan-tan consciente dessa gente que foi silenciada por uma escola que não deu bola a nossa história quilombola. Aqui onde eu estou, no maior entusiasmo e calor as pessoas constroem saber tocando tambor. Foi esse toque de marcação zulu que sempre me fez vibrar com o encanto do maracatu. Portanto, agora estou mixando duas paixões vitais. Estamos brincando com a negrada sincronizando o cortejo ritual com o rito teatral. Daí nasceu MARACABOI - O MARACATU SAMPLEADO DE MATEUS E CATIRINA. Uma cena de bumba-meu-boi dentro do cortejo da realeza negra.

Ah cidade-personal, por lá, as pessoas já começam a perceber o quanto eu e você nesse nosso amor cor de tambor podemos crescer juntos. Eu a cada dia mais ligado na periferia e no rap que os meninos fazem. Uma informação que puxa, derruba e põe pelo avesso meus tempos de faculdade. Como diria o cantor "quero esquecer o francês". Ora esse CANTO-FALA é o que por lá não cala. Dispara na cara de quem quiser o conceito dessa nova teoria. Hoje em dia não precisa que ninguém fale pela periferia. Ela tem cara, voz, toque e identidade. E o rap é a contra-narrativa sonora que faz frente às falácias indecentes do sistema decadente.

Ta vendo cidade tribal é por isso que o canto dos griôts (velhos africanos c@ntadores de histórias) já havia me dito num discurso de oralidade plena. É bom que a gente encontre a melhor maneira de perenizar a memória. Na periferia tem maracatu, rap e brinquedo de boi. Boa parte da memória negra em nossas mãos. O toque que a gente faz soar agora é o das conexões, sampleando tradição e renovação, dinamicamente. Tão contente quanto o grito do meu amor combatente e cheirando à flor. Que nem o bater do tambor, Fortalezinha-tan-tan.

sábado, outubro 07, 2006

Fortaleza e o Maracatu que Penera e Namora com esse Tempo de Agora

FORTALEZA cidade desigual e sempre a "fortaleza" que anuncia os infortúnios e as incertezas desse tempo digitalizado. Tempo do mínimo mais nanométrico se estabelecendo no silêncio de quem domina. E você cidadela do meu tambor, nem imagina ou sabia que essa peneira perversa já começou a coar a tal da nanotecnologia.

Pois é, quem diria cidade sem fronteiras, que uma comunidade inteira pode vir a ser o caldo que não vai ser peneirado nessa peneira. Bem, como o meu amor por você cidade-tambor é infinitesimamente feito de desejo pidão e enfartado de tesão, eu o colocarei à disposição dessa farinhada para que ela seja feita em forma de toada. Talvez um canto-de-trabalho. Sabe Fortaleza neste canto marítimo da periferia onde eu estou a canção passa de mão em mão, a marcação cadencia com o princípio da criação e aqui a primeira posição é de quem chega igual, que nem as vozes e os instrumentos de qualquer CANTO CORAL.

Sabemos sim, cidade, que o silenciar opressor tem feito coisas que meu avô iria ficar bestificado com o trancoso que ele contava: ["eu bem-que-te-disse"...e foi assim que o canto do bem-te-vi alertou a raposa presunçosa]. Mas Fortaleza é dessa mesma caixa de invenções que sai a esperança da molecada que hoje comigo toca tambor como quem vai ao TO-RO-RÓ. Esse toque meu amor vai contar par sua avó que você e eu e os erês dessa geração, bebemos na água ancestral de um batuque que já vem de longe. O nosso amor tem a mesma cor do breu, você eu e essa vida que nos ensina vadiando no maracatu sampleado de Mateus e Catirina.

Ah Fortaleza-tan-tan-zinha o que a gente pode a gente tem feito, a despeito de qualquer miúda imposição que não contemple os tambores. O suor de todos os ensaios fica assim perfilado no ar somente esperando o jogo das mãos pra tudo de novo recomeçar. Não importa a tecnologia que virá. O que conta é a maneira como a gente penera a peneira pra namorar. O meu amor por você é um eterno recomeço já vem do berço e assim como a contação do meu avô, está à disposição do toque de tambor que toca para acalentar o canto Jeje-Nagô.

sexta-feira, outubro 06, 2006

Na Alma do Maracatu o Toque Bantu que Acalma

Cidade-melodia o porte de metrópole ainda não coube bem em você meu bem. A mídia aperreada que te esquadrinha pra te vender aos novos colonizadores virtuais e de esquina, até agora não deu conta de tantos alabês, todos erês, que eu sintonizei nas ladeiras em pleno Castelo Encantado.

É uma nova canção que toca na pele da cidade situada do outro lado da cicatriz. É de encantar o toque desses novos filhos de "mama áfrica". E cidade é só eu me embrenhar topic adentro que a gente vai bater nuns tambores que hoje soam uma história que ta fora dos livros. Ta na pele, no corpo, no jeito e na atitude, explodindo e se fazendo valer em valores outros.

Fortaleza nesse dia de ladeira eram os ibejis que lhes beijavam as esperanças. Qualquer criança cidade sabe que "o mundo era pra ser melhor" ou, na pior das hipóteses, o reino das diferenças que não se anulam. Longe do centro eu vou encontrando, nos MARACATUS, uma leva desses erês. É bom que assim seja, pois Fortaleza por aqui a história do povo negro precisa começar a ser recontada. E, de preferência, pelo som dessa meninada que vive com o rap na cabeça e as mãos sampleando a força dos atabaques. Era tudo que faltava para essa nova partitura de tambores da cidade.

A felicidade maior Fortaleza é que além dessa conexão que é feita pra lá dos verdes mares bravios, é através de canções que essa identificação está se reafirmando. Mais essencial impossível. A gente vendo aquelas mãozinhas sobre atabaques direcionando os novos caminhos que vão re(percutir) e soar nos corações e mentes das ladeiras, até estremece com a determinação de tantos tantãs.

Sim Fortaleza, a memória da minha cidade se reconhece nessa nova história que não alija os ibejis, até porque na sua infinita sabedoria infantil eles simbolizam a dualidade: o quente e o frio, a luz e a escuridão, o masculino e o feminino, o divino e o humano, o início e o fim. Num falei que dava pra estremecer, Fortaleza!? Mas vamos de canção? Ora se não! Só se for agora, tome outra:

"ZUMBI_A FELICIDADE GUERREIRA" - (Waly Salomão - Gilberto Gil)

quinta-feira, outubro 05, 2006

Tambor Tribal vem Trazer a Loa que da Periferia Soa pelos Erês

Fortaleza customizada, a cidade varrida pelo surrupio de muita infância e adolescência que não conheceu e só perdeu o TEMPO DO BRINQUEDO. Que degredo de medo maior uma cidade pode impor à sua próxima geração desencantada. Sim, Fortaleza, uma meninada jogada no fundo de um futuro infeliz, catando pelo meu engajamento que deveria sustar todo e qualquer desenvolvimento que abortasse o tempo do bem viver dos novos ibejis e erês. Inominável a atitude degradante que espolia a folia essencial. Que porvir promissor tem a meninada que deveria comigo tocar tambor, mas que agora, de maneira lamentável, labora a horas disputando os resíduos sólidos dessa cidade?

Fortaleza a gente queria mais alegria para o dia-a-dia dessa galera que desgraçadamente foi forçada a esse batente. Alegria daquelas mais utópicas que reviram os sonhos mais primários que imaginário nenhum alcança. Sonho de criança. Pergunte pra eles minha cidade ibejada, o que essa meninada mais quer, sabe o que é...pois é, imagina se seria diferente?! Um direito assegurado e cotidianamente negado. É por isso cidade agoniada, que por aqui no couro desse maracatu, a reflexão soa de dentro do coração e com garra bate tinindo na triangulação que toca, sente e sua por quem está na rua. São histórias muito próximas ou até mesmo de dentro da própria comunidade. Lá vão cortando a cidade a pé, as mãos que podiam está agora tocando afoxé e vadiando no boi. Daí, aqui no cortejo, a marcação estonteante dos zabumbas cede ao corte dolente e vertical do berimbau. A meninada levanta as baquetas e intuitivamente cria no ar o estandarte solidário de quem tem A MESMA ASCENDÊNCIA. Desde a capoeira-brinquedo ao maracatu que espanta degredo, o povo negro não se entregou ao medo. Os quilombos de hoje em dia empunham as mais diferentes bandeiras de lutas e, quem diria, reconhecem de longe a irmandade da periferia.

Por essas horas os pés dos meninos já vão longe...saltita daqui, saltita de lá, é um carro aperreado que quer passar. Motorizado passa rente à carroça desengonçada dos erês sem tempo para saber da dor daquela gente. Até porque o veiculo quer mais é fingir que não vê o resultado de sua divisão fecal e desigual.

Os meninos e as carroças passam o dia no sol quente apanhando papelão, papel e jornal sem tempo para sentir o batuque cabaçal, sem vivenciar no corpo qualquer TOQUE ANCESTRAL, sem saber como é que foi que por aqui chegou o boi. Em razão disso os que estão agora contentes com a gente dançando no maracatu tocam como Doum brincando no cavalo de Ogum. Já sabem da solidariedade para com os que nesse instante caminham do outro lado da cidade e merecem que por eles cantemos nossa mais bela loa de irmandade.