Fortaleza e o Toque Sensual de um Tambor Tribal
Pela estrada que fica por fora, todos os caminhos me levam ao coração desta cidade que, felizmente, não é no centro. O sangue que pulsa e bombeia no frescor da lua cheia vem da veia que não envelhece nem padece de afirmação.
Fortaleza, cada vez mais o que eu sinto por você refaz as veredas que guiam o destino de um velho-menino. Ah! Cidade sem bússola, a direção certa da minha satisfação é onde eu possa expressar o meu amor cor de tambor. Em razão disso, Fortaleza, eu nem preciso dizer o que você já sabia: é na sua periferia tão maltratada que o batuque do tambor purifica a dor e instaura o meu amor question[a]dor. Daí a alegria fica ali, é um pêndulo a balançar pra lá e pra cá. É por isso que apesar das dores constantes é nos tambores que a periferia se desnuda e RECRIA O PULSAR que deve embalar o nosso dia-a-dia.
Fortaleza é à margem do seu corpo que o meu prazer vem me dizer por onde eu devo tocar em você. Nessa hora o meu amor cor de tambor, na mais completa reverência aos ancestrais, apenas flana lhe ofertando flores. O amante de antes e de natureza noturna copula e sai tocando toda epiderme que ele já conhece pela textura do sofrimento, mas que se deixa tocar sem lamentos. Quando isso acontece sei que estou penetrando no espaço mais divino de Fortaleza. A mais perfeita simbiose. A felicidade sem a qual eu não viveria. O clitóris da minha cidade fica na periferia. É por isso que eu aqui cheguei arrastado pela levada leve que soava revertendo à tristeza. Éramos eu e tu no maracatu da sutileza e aquela mesma intenção de conexão com os elementos da natureza.
Ainda encharcada de mim a cidade escorrega periferia adentro e um mar de sofrimento entra e sai pingando no suor do maracatu de amores sintonizando as vozes com os tambores. Nesse coito descomedido o gozo da cidade se mistura ao meu prazer gutural. É quando o nosso amor ribomba tal qual tambor tribal. Esse som vai bater longe, vai chamar toda a comunidade pra felicidade do ritual que congrega. Faz tempo que por aqui o tambor também soa na boca. É a festa muito louca dos meninos e o seu som da rua. PÁ-PÁ-TI-PRUM ~ PÁ-PÁ-TI-PRUM. Quem não é daqui não entendeu patavina. Isso é apenas o Maracatu Sampleado de Mateus e Catirina!
Memória oral nesse local se transforma também em sonoridade, na verdade uma revira...volta aos tempos em que os tambores falavam, conectavam, transportavam e faziam a ligação com os deuses. Não perderam essa função, apenas ganharam as mãos de uma moçada jovem que toca com tanta dignidade como se quisessem religar os desejos daquela comunidade. E são tantos e são tão críveis tais solicitações que a tríade RUM, RUMPI e LÊ fica a estremecer sem saber por onde começar.
Sinta Fortaleza agora no ar uma fragância rítmica, matematicamente certeira, tocante. Os meninos menores se aprochegam então eu já sei que toque toca agora esse maracatu de louvor: isso é um ALUJÁ de Xangô.
O povo de maracatu, em sua grande maioria, se filia a essas linhas das crenças africanas. Muito bacana a forma dessa fé que não se abala com o toque da folia, antes o contrário, se contagia e crer com muito amor, que a festa bem atesta um politeísmo criador.




