quinta-feira, janeiro 04, 2007

As sandálias e o Tambor Totem do meu Avô

Nos samplers sincopados dos solados das minhas sandálias, o plano riscado da minha cidade tem-me firmado no descompasso aperreado de uma periferia pendurada em planos. Por aqui quando passa a sintonia chacoalhando o dia-a-dia sempre prenuncia um leve desespero homeopático.

E não é pra menos! Foi por essas bandas que ainda há pouco o sorriso simpático das campanhas - como sempre - desintegrou-se em desafinadas notas sinistras. Notas que não são as do autodidata que rege a percussão do meu maracatu. NOTAS INOMINÁVEIS e indecentes, muito diferente das anotações da negra senhora a soluçar “odô yá, yemanjá!”, dialogando horizontal com a tal da educação popular. Notas que desequilibram e afundam a periferia em projetos de esperança terçã.

O que sempre supera e surte efeito no meu arrasta-pé quando eu me embrenho periferia adentro é que minhas sandálias são danadas pra provocar o canto do bando de erês por onde elas passam.

"Cai, cai sereno / Cai meu destino / Me leva agora / Para brincar com os meninos!"

Cidade tan-tan, é eu ir passando e aquele cardume se dependurando aonde nem espaço nem tempo dão conta desse canto de presente que atende pelo singelo nome de Doum. Eles me seguram assegurando que “Doum é amigo legal, sem Doum eu não posso ficar”. As sandálias saem em descontrole, afinal pra ERÊ TUDO É XIRÊ, mas nesse instante de folia só dá tempo do meu pé tropeçar na craterinha de um descompromisso chamado saneamento básico. O sorriso em coro do bando refaz meu azedume reivindicatório enquanto eles lavam as sandálias que não foram feitas para o banho, muito embora adote os erês e admita ser MÃE DOS FILHOS-PEIXES.

E o cortejo segue os meus passos rumo ao espaço onde o compasso é a mais perfeita simetria das alegrias que emanam da periferia. É que hoje é dia de ensaio. Envolto ainda pelo cardume de erês que agora disputa com a circunferência gigantesca dos tambores, eu faço questão de me perder nesse chão que se reveste em assentamento das diferentes tribos de um micro cosmos chamado maracatu. É o tambor bater e a gente vê uma comunidade em peso se energizar pelos tantãs que, neste começo de noite, na cidade de Fortaleza, têm a mesma força ancestral do velho tambor tribal. Que beleza é bem legal! Então...as sandálias? Viraram adubo desse chão sagrado.