sexta-feira, janeiro 02, 2009

Laroiê! O Dendê de Tantan

O princípio primeiro. O Mestre de Cerimônia que rompe regras e instaura a nova concepção e, ao mesmo tempo, o correr do cotidiano. Fecundando a terra com seu falo flamejante para que um mundo de gente decante sem se dar conta de seu poder incomensurável. A ESSÊNCIA DA COMUNICAÇÃO que traduz todas as línguas e faz com que todos os discursos sejam possíveis. Sua palavra ganhando significação na maneira como a dança dos búzios deixa transparecer o que ele tem a dizer.

sexta-feira, abril 13, 2007

281 Tambores!!!

Parabéns, cidade!

domingo, março 25, 2007

MARACATU - O Esplendor dos Orixás quando Anoitece na Periferia

Ah Cidade sem ladeiras, sabe Olorum o que faz! Imagina se fossem íngremes teus caminhos de onde estou pra onde fincaram a maioria de teus maracatus? Por aqui as loas não rolam ruas abaixo, mas como lavam as angustias represadas pelo dia-a-dia. O Maracatu na periferia é um ponto que balança equilibrando tradição e renovação para que A MEMÓRIA NEGRA conte a história do tempo. O Maracatu é o sol se pondo e a noite imprimindo na pele dos que brincam – ainda que na fantasia de um carnaval – a cor de um tambor tribal. É o maracatu a longa noite iluminando as cabeças que saem das cabaças para compreender a longevidade sonora dos tambores. O maracatu em você Fortaleza corre pelas beiradas e arrasta uma negrada que parece silenciosa. No entanto esse silêncio soa e se esbalda na oralidade dos orikis. E os mais antigos nas comunidades ditas carentes esbanjam essa sapiência pelos poros.

Ainda bem que eu não sei em quantos palmos o seu clitóris foi dividido, meu bem. Sei que quando adentro em cada um deles me reconheço nessa festa que passou pelo GRIOT DO MEU AVÔ e desaguou na cor do meu tambor. As partes íntimas dessa cidade são que nem a palma das mãos dos ogans e sua relação orgânica com os tantãs. Por isso que na periferia, Fortaleza, exista ou não a compreensão da preservação, aquele chão só pode ser sagrado. O reino dos orixás tem endereço e se identifica plenamente, principalmente quando a noite vem. Em Fortaleza as noites da periferia são mais negras. Nelas os tambores que magnificaram meus erês na avenida, agora dão vida a outras entidades. Nessas comunidades – ápice do meu entusiasmo – o bater tambor é louvação a Xangô ou licença de Exu. Mesmo que o toque seja apenas um ensaio de maracatu. Saiba ou não da procedência dessa história, a periferia – resistente - toca e atualiza a memória de uma cultura afrodescendente.

Essa é uma narrativa que nunca termina. Filho do meu filho, gestamos e parimos mais um na boquinha da noite. Mais uma boca pra falar, contar e alimentar essa tradição que se renova DINAMICAMENTE. Um maracatuzinho de erês é para que os porquês fluam por uma oralidade que se sustenta. Um maracatuzinho é somente o resultado de uma semente em solo fértil, pronto para encorpar no fundo da alma a palma da mão nos tantãs. O griot que encantou o meu avô, já sabia que o filho do meu filho teria cor de tambor. Mais um maracatuzinho de erês na periferia, somente porque é aí cidade que a minha verdade dialoga com você. Um maracatuzinho, sempre as sextas, à boquinha da noite pra minha alegria, num pedaço qualquer da periferia. Laroiê!

sexta-feira, março 02, 2007

Águas em Março e o Batuque da sede dos Erês

Cidade, em você as palavras sempre se mantêm aquém...mas quem meu bem pode melhor desnudar o que está por baixo de rendas e na rede? As minhas mãos bobas passeiam por essa cavidade lagoeira que é o teu monte pubiano estupefato e tão só, mas como o amor é generoso faz das varandas escorrerem as águas represadas e as áreas de risco. Eu na periferia já bebi dessas águas em marços antigos. Ora teus pêlos pubianos são tão jovens não suportam um descaso com cara de espoliação tardia e contínua. Chuva no subúrbio é o ícone que sanciona - sem pudor - o tempo do desequilíbrio. Mal o carnaval do calendário passa a chuva arrasa e lava teu mênstruo estéril.

Ainda bem cidade tambor que a passagem dos meus erês desfilando por você ensopou de felicidade o que só o tempo conquista. Foi uma bela vista vê-los tamborilar brincando com a marcação do meu maestro autodidata. Aqui a redundância se faz necessária, mais que isso, impõe-se. É essa felicidade de uma festa datada quem vai reerguer as casas que mais parecem castelos de areia no mar. O dobrado das palavras – único porta-estandarte do meu teclado – é na intenção de tremular como só um batuque de maracatu sabe fazer, pra dizer que o carnaval é um ESTADO DE ESPÍRITO. Se as águas encharcam até a mais indescritível das ausências, os tambores sempre vão restaurar a presença vital da folia do carnaval. Pulsão essencial com a qual vamos deletar sanções de desigualdade a fim de restabelecer o equilíbrio em você cidade.

Em março todas as águas vêm beber o que uma pedra de gelo teria saciado na hora em que os erês desfilavam. Felizmente OS TAMBORES parecem que salpicavam ao comando de mãos tão jovens elevando o suor da testa aos encantos de Oxum que o transformava serenamente em água doce. E o cortejo como na vida seguia, ia ofertando uma bela vista do que seria essa folia vinda de antes dos nossos avós. O mês se inicia e o vexame principia. A cidade tambor submerge, mas a alegria dos tantãs finca pé. Muito além de um paliativo com hora e data pra acontecer, a festa real do carnaval alça o cavalo de Ogum e paira sobre as crateras abertas. Quem diria Fortaleza que precisaria de tanta água para o perímetro urbano todo sentir a correria do dia-a-dia da periferia.

Minha aguada cidade amada tomara que agora nessa hora, a sede dos erês esteja brincando na coroa do céu de Olorum. É muito importante, eu diria até – capital – que a solidariedade do carnaval não se dissolvesse. É essa congregação de forças que faz a gente perceber que a magia passa pelas nossas mãos. Que suor e lágrimas são líquidos da mais pura essência da existência humana. Que apesar dos deslizes dos “castelos de areia” e sobretudo apesar das autoridades, a cidade de Fortaleza contou com dez associações de maracatus nesse carnaval. Sendo o carnaval um estado de espírito seria essencial pensar que grande parte desse patrimônio mora na chamada área de risco. Falo isso cidade faceira porque “eu vi MAMÃE OXUM na cachoeira!”

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O Olho do Sol Negro e a Luz do Maracatu

Ei cidade negrume do meu prazer carnal...o carnaval vem aí, ou melhor nunca saiu daqui. Cada silêncio que guarda o som desses tambores tão requisitados nos nossos ensaios vai somar-se a uma algazarra na avenida na passagem de cada um dos cortejos negros de nossos maracatus. Sim Fortaleza, os tambores estão nas ruas é festa na cidade. Só mesmo com muita força e fé da negrada, a alma escancarada e muita batucada pra se levantar um espetáculo dessa natureza. Vai-se embora a tristeza dependurada e sobressalente no fundo de cada quintal. O carnaval é o ritual do tempo certo para que a festa adentre - sem cerimônias - deixando nas mentes e corações um sumo vital de renovação. Assim Oxalá queira, pois a quarta-feira fica resguardada num pêndulo que não pára.

Foi bom Fortaleza ter feito do maracatu o marco-zero da minha paixão tamborelesca e tribal por você. Estão muito próximas as sensações existentes e tem até loa de coroação. O destaque é o meu sentimento que cria raízes fundas que certamente já foram lá na África de onde vieram. Eu sou um andarilho e embaixo dos meus pés giram as cirandas de velhos griots sempre me conduzindo para os subúrbios iniciáticos. O Maracatu faz tempo que aqui está, mas é a condição de país periférico que faz de alguns locais da cidade verdadeiros monumentos à impassibilidade. No entanto ou apesar disso, o pranto desliza e vira viço quando nesses locais a soma percebe-se maior que cada uma das partes. Isso é o mesmo que eu tocando em você e o meu toque sendo o tambor do seu prazer. Ou então você se desnudando pra mim para que eu cumpra suas primícias num jogo de sem par, de mar e de malícia como cantaram os orixás.

O carnaval já tamborila no teclado do meu micro todo
NEGRO
. Mas eu não posso me furtar de contar como é que foi que por aqui bumbou o boi. Bumbar foi o verbo da hora. Seja na marcação surda e certeira dos bumbos ensaiando batidas no ar, seja na ala do maculelê eu e você que só cresceu e conquistou o que já era seu. Bonita a sincronia dos paus do maculelê eu e você com a percussão dos tambores. No meio da rua como deve ser, com todas as interferências, e a gente ouvindo e viajando na freqüência poética daquela fusão. Tambores e maculelê eu e você, pra vocês um beijo pela ancestralidade como conectaram o cortejo.

Realçar momentos peculiares é a forma menos pálida para transcrever o que as palavras nem imaginam. Que discurso daria conta de dizer sobre cada pedaço de tecido gerido com finais de tarde, café e tapioca? Qual blog saberia dizer a dimensão que tem duas horas de ensaio sem deixar transparecer a irritante sinfonia das barrigas? Em que língua deve ser escrita a angustia daqueles babados pendurados ao relento no vento clamando para que não chovesse. Os tecidos pesados e ainda com cheiro de novos que logo ganhariam vida e redimensionariam o corpo tímido da dona Maria que embaixo deles se transfor(Maria) numa legítima baiana de periferia? Qual descrição contaria da alegria solar dessa cidade abafada que nem os tampos de alguns tambores pra entrar no tom certo?

Essas coisas cidade, se não fazem chorar devem servir pra gente reinventar a vida. Isso não são hipóteses de teses acadêmicas. É a vida raquítica sustentando enormes tambores ao mesmo tempo em que eu digo pra elas que a gente toca com o corpo inteiro e daí essas vidas ensaiam até COREOGRAFIA. Eu sei que isso só acontece pelo amor que você tem por mim, Fortaleza, mas com certeza você bem sabe que eu sou o negrume que faz todas as belezas da noite aparecerem, ainda que nas opacas luzes dos raros postes de periferia. Dentre as incontáveis razões do meu amor, essa é uma singela demonstração da cor do meu tambor. Eu lhe asseguro que você vai encontrar dele em grandes proporções, basta direcionar o olhar para onde nasce ou se põe o negro sol lunar.

Capital cyber-especial daqui de onde eu digito o monitor estremece e amolece com um bloco de pré-carnaval que acaba de nascer. Mora perto de mim e está prometendo que o ano que virá não vai ser igual àquele que passou. É meu amor cor de tambor, essa fala é somente para registrar o corte umbilical de uma promessa tribal. Apesar de eletrônicos os tambores desse bloco, não há como eu não os chamar, carinhosamente, de meu MARACATU ATÔMICO. Afora o AFOXÉ que pela primeira vez vai mostrar no carnaval de Fortaleza a beleza e riqueza da cultura afro. Creia cidade, estamos em fevereiro de 2007.

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Dia de Festa no Mar!

Dia 02 de Fevereiro...Odô Yá, Yemanjá!

sexta-feira, janeiro 12, 2007

O Eito que tem Leito Perfeito no meu Peito em Festa

Por traz de uma pilha de tambores muito bem pode-se encontrar o ritmo dengoso de um semblante molhado de amores. É de deixar qualquer um maravilhado vivenciar a azáfama de um espaço aonde o carnaval mora. Aqui nesse maracatu as mesmas mãos que põe cola nos canos são também as conchas certeiras nas quais as baquetas vão se abrigar e ritmar o ritual da batida. Dessa vez, mais uma vez, elas não só vão batucar noutro compasso, como também irão render homenagem ao ritmo dolente da tradição. Por um momento uma teoria sociológica vira tese de alegria memorável. Tradição e renovação dinamicamente nas mãos de um grupo de percussão que anima a comunidade trazendo tempo e memória num só coração.

Aqui não existe a estrutura nem pra gente guardar os tambores – sempre eles – mas a forma coletiva como essa falta é gerenciada nos faz parar e lembrar dos porões dos navios. Dos fétidos porões aos chicotes dos feitores tudo eram dores. E tudo foi suplantado pelo toque dos tambores. Tambores que agregaram tribos as mais divergentes unificando a força da nossa gente. Relembrar como os escravizados eram detentores de UMA ALTIVEZ que veio desaguar nisso que o povo da periferia hoje em dia chama de batalha pela sobrevivência.

De um nada material o carnaval vai sendo posto de pé. Daí que sobram e abarrotam as analogias. O dia-a-dia pisando nas esperanças tardias desse povo e ele ainda senta e espera a hora da troca dos instrumentos – aqui são tão poucos para tantos tantãs. Os erês (sempre em bando) na minha visão guardam uma intimidade pulsante com a magia do som ancestral, pois é das mãos desses músicos por osmose que sai o chamamento pro momento tribal. Tambores de maracatu, no meio da rua, num começo de noite não tem conta que dê conta de tanta festa! A falta não deixa de existir é que a descendência desse povo é essa, xirê. É por isso que, após cada ensaio, meus tímpanos saem atualizando AS CONEXÕES DESSE VOCÁBULO com o que acontece quando a festa acalma. Parece que naquele momento o tambor transfigura aquela situação de dor no amor do martelo justiceiro de Xangô. Isso quem me contou foi o meu avô que toda noite dedicava a si próprio, três continhas do seu rosário. Santificado sincretismo, sempre dava um jeito de no seu trancoso samplear a memória de algum orixá. Quem sou eu pra não aceitar.

De tanto ouvir os tambores sua pulsação tem-me feito redesenhar o meu caminho de volta. E nessa minha diáspora suburbana o que é mais bacana é constatar esse modo de ser do meu avô no povo de maracatu. Talvez isso os torne mais generosos e solidários. Num mundo balizado pelo valor de mercado realmente fica inviável validar o que já não há. O maracatu tem tribalizado meu sonho apaixonado pelo rito teatral. Essa sim, é a outra ponta da conta do meu rosário.

Pra terminar vale lembrar que a métrica do meu falar é o linguajar da oralidade que musicalizado imortaliza uma memória mítica. Foi sim com os griots que aprendi a c@ntar tecendo narrativas que se dilatam feito bilros em mãos rezadeiras. E por falar nisso rogai por mim nessas três continhas, minha mãe! O que eu queria mesmo era ter contado hoje a história dos SEIOS DOLOROSOS de Yemanjá. Essa quem me passou foi a negra senhora do post anterior. Mas um dia o maracatu há de deixar! Odô Yá! Odô Yá, Rainha do Mar!