segunda-feira, fevereiro 12, 2007

O Olho do Sol Negro e a Luz do Maracatu

Ei cidade negrume do meu prazer carnal...o carnaval vem aí, ou melhor nunca saiu daqui. Cada silêncio que guarda o som desses tambores tão requisitados nos nossos ensaios vai somar-se a uma algazarra na avenida na passagem de cada um dos cortejos negros de nossos maracatus. Sim Fortaleza, os tambores estão nas ruas é festa na cidade. Só mesmo com muita força e fé da negrada, a alma escancarada e muita batucada pra se levantar um espetáculo dessa natureza. Vai-se embora a tristeza dependurada e sobressalente no fundo de cada quintal. O carnaval é o ritual do tempo certo para que a festa adentre - sem cerimônias - deixando nas mentes e corações um sumo vital de renovação. Assim Oxalá queira, pois a quarta-feira fica resguardada num pêndulo que não pára.

Foi bom Fortaleza ter feito do maracatu o marco-zero da minha paixão tamborelesca e tribal por você. Estão muito próximas as sensações existentes e tem até loa de coroação. O destaque é o meu sentimento que cria raízes fundas que certamente já foram lá na África de onde vieram. Eu sou um andarilho e embaixo dos meus pés giram as cirandas de velhos griots sempre me conduzindo para os subúrbios iniciáticos. O Maracatu faz tempo que aqui está, mas é a condição de país periférico que faz de alguns locais da cidade verdadeiros monumentos à impassibilidade. No entanto ou apesar disso, o pranto desliza e vira viço quando nesses locais a soma percebe-se maior que cada uma das partes. Isso é o mesmo que eu tocando em você e o meu toque sendo o tambor do seu prazer. Ou então você se desnudando pra mim para que eu cumpra suas primícias num jogo de sem par, de mar e de malícia como cantaram os orixás.

O carnaval já tamborila no teclado do meu micro todo
NEGRO
. Mas eu não posso me furtar de contar como é que foi que por aqui bumbou o boi. Bumbar foi o verbo da hora. Seja na marcação surda e certeira dos bumbos ensaiando batidas no ar, seja na ala do maculelê eu e você que só cresceu e conquistou o que já era seu. Bonita a sincronia dos paus do maculelê eu e você com a percussão dos tambores. No meio da rua como deve ser, com todas as interferências, e a gente ouvindo e viajando na freqüência poética daquela fusão. Tambores e maculelê eu e você, pra vocês um beijo pela ancestralidade como conectaram o cortejo.

Realçar momentos peculiares é a forma menos pálida para transcrever o que as palavras nem imaginam. Que discurso daria conta de dizer sobre cada pedaço de tecido gerido com finais de tarde, café e tapioca? Qual blog saberia dizer a dimensão que tem duas horas de ensaio sem deixar transparecer a irritante sinfonia das barrigas? Em que língua deve ser escrita a angustia daqueles babados pendurados ao relento no vento clamando para que não chovesse. Os tecidos pesados e ainda com cheiro de novos que logo ganhariam vida e redimensionariam o corpo tímido da dona Maria que embaixo deles se transfor(Maria) numa legítima baiana de periferia? Qual descrição contaria da alegria solar dessa cidade abafada que nem os tampos de alguns tambores pra entrar no tom certo?

Essas coisas cidade, se não fazem chorar devem servir pra gente reinventar a vida. Isso não são hipóteses de teses acadêmicas. É a vida raquítica sustentando enormes tambores ao mesmo tempo em que eu digo pra elas que a gente toca com o corpo inteiro e daí essas vidas ensaiam até COREOGRAFIA. Eu sei que isso só acontece pelo amor que você tem por mim, Fortaleza, mas com certeza você bem sabe que eu sou o negrume que faz todas as belezas da noite aparecerem, ainda que nas opacas luzes dos raros postes de periferia. Dentre as incontáveis razões do meu amor, essa é uma singela demonstração da cor do meu tambor. Eu lhe asseguro que você vai encontrar dele em grandes proporções, basta direcionar o olhar para onde nasce ou se põe o negro sol lunar.

Capital cyber-especial daqui de onde eu digito o monitor estremece e amolece com um bloco de pré-carnaval que acaba de nascer. Mora perto de mim e está prometendo que o ano que virá não vai ser igual àquele que passou. É meu amor cor de tambor, essa fala é somente para registrar o corte umbilical de uma promessa tribal. Apesar de eletrônicos os tambores desse bloco, não há como eu não os chamar, carinhosamente, de meu MARACATU ATÔMICO. Afora o AFOXÉ que pela primeira vez vai mostrar no carnaval de Fortaleza a beleza e riqueza da cultura afro. Creia cidade, estamos em fevereiro de 2007.