Fortaleza e a Canção-Memória da nossa Negra História
Ah Fortaleza disfarça, pois o dia hoje passa cantante como se carregasse todas as canções suaves de fazer santo descer. É mesmo que ta vendo o mar de melodias das ondas que um dia fundiram-se num espetáculo de teatro em plena Ponte Metálica. Sim cidade-melancólica, a luz carmim que o sol cintilava era o candeeiro que iluminava a sonoridade da tua menstruação que não parava de cantar. E a maresia daquele dia que tingiu toda a companhia também nos deixou um recado: esta é uma cidade cuja verdadeira vocação é a pulsão dos amores AO SOM DOS TAMBORES.
Cidade-canção na palma da minha mão há um traço que me aponta que sou cria desse teu lado aonde a musicalidade bate mais forte que os antigos chicotes. E não há melhor espetáculo Fortaleza que a sintonia de uma periferia toda cadenciada numa levada mais tocante que o baticum do meu coração. Ouça cidade decente, escute o tan-tan-tan consciente dessa gente que foi silenciada por uma escola que não deu bola a nossa história quilombola. Aqui onde eu estou, no maior entusiasmo e calor as pessoas constroem saber tocando tambor. Foi esse toque de marcação zulu que sempre me fez vibrar com o encanto do maracatu. Portanto, agora estou mixando duas paixões vitais. Estamos brincando com a negrada sincronizando o cortejo ritual com o rito teatral. Daí nasceu MARACABOI - O MARACATU SAMPLEADO DE MATEUS E CATIRINA. Uma cena de bumba-meu-boi dentro do cortejo da realeza negra.
Ah cidade-personal, por lá, as pessoas já começam a perceber o quanto eu e você nesse nosso amor cor de tambor podemos crescer juntos. Eu a cada dia mais ligado na periferia e no rap que os meninos fazem. Uma informação que puxa, derruba e põe pelo avesso meus tempos de faculdade. Como diria o cantor "quero esquecer o francês". Ora esse CANTO-FALA é o que por lá não cala. Dispara na cara de quem quiser o conceito dessa nova teoria. Hoje em dia não precisa que ninguém fale pela periferia. Ela tem cara, voz, toque e identidade. E o rap é a contra-narrativa sonora que faz frente às falácias indecentes do sistema decadente.
Ta vendo cidade tribal é por isso que o canto dos griôts (velhos africanos c@ntadores de histórias) já havia me dito num discurso de oralidade plena. É bom que a gente encontre a melhor maneira de perenizar a memória. Na periferia tem maracatu, rap e brinquedo de boi. Boa parte da memória negra em nossas mãos. O toque que a gente faz soar agora é o das conexões, sampleando tradição e renovação, dinamicamente. Tão contente quanto o grito do meu amor combatente e cheirando à flor. Que nem o bater do tambor, Fortalezinha-tan-tan.





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