O Eito que tem Leito Perfeito no meu Peito em Festa
Por traz de uma pilha de tambores muito bem pode-se encontrar o ritmo dengoso de um semblante molhado de amores. É de deixar qualquer um maravilhado vivenciar a azáfama de um espaço aonde o carnaval mora. Aqui nesse maracatu as mesmas mãos que põe cola nos canos são também as conchas certeiras nas quais as baquetas vão se abrigar e ritmar o ritual da batida. Dessa vez, mais uma vez, elas não só vão batucar noutro compasso, como também irão render homenagem ao ritmo dolente da tradição. Por um momento uma teoria sociológica vira tese de alegria memorável. Tradição e renovação dinamicamente nas mãos de um grupo de percussão que anima a comunidade trazendo tempo e memória num só coração.
Aqui não existe a estrutura nem pra gente guardar os tambores – sempre eles – mas a forma coletiva como essa falta é gerenciada nos faz parar e lembrar dos porões dos navios. Dos fétidos porões aos chicotes dos feitores tudo eram dores. E tudo foi suplantado pelo toque dos tambores. Tambores que agregaram tribos as mais divergentes unificando a força da nossa gente. Relembrar como os escravizados eram detentores de UMA ALTIVEZ que veio desaguar nisso que o povo da periferia hoje em dia chama de batalha pela sobrevivência.
De um nada material o carnaval vai sendo posto de pé. Daí que sobram e abarrotam as analogias. O dia-a-dia pisando nas esperanças tardias desse povo e ele ainda senta e espera a hora da troca dos instrumentos – aqui são tão poucos para tantos tantãs. Os erês (sempre em bando) na minha visão guardam uma intimidade pulsante com a magia do som ancestral, pois é das mãos desses músicos por osmose que sai o chamamento pro momento tribal. Tambores de maracatu, no meio da rua, num começo de noite não tem conta que dê conta de tanta festa! A falta não deixa de existir é que a descendência desse povo é essa, xirê. É por isso que, após cada ensaio, meus tímpanos saem atualizando AS CONEXÕES DESSE VOCÁBULO com o que acontece quando a festa acalma. Parece que naquele momento o tambor transfigura aquela situação de dor no amor do martelo justiceiro de Xangô. Isso quem me contou foi o meu avô que toda noite dedicava a si próprio, três continhas do seu rosário. Santificado sincretismo, sempre dava um jeito de no seu trancoso samplear a memória de algum orixá. Quem sou eu pra não aceitar.
De tanto ouvir os tambores sua pulsação tem-me feito redesenhar o meu caminho de volta. E nessa minha diáspora suburbana o que é mais bacana é constatar esse modo de ser do meu avô no povo de maracatu. Talvez isso os torne mais generosos e solidários. Num mundo balizado pelo valor de mercado realmente fica inviável validar o que já não há. O maracatu tem tribalizado meu sonho apaixonado pelo rito teatral. Essa sim, é a outra ponta da conta do meu rosário.
Pra terminar vale lembrar que a métrica do meu falar é o linguajar da oralidade que musicalizado imortaliza uma memória mítica. Foi sim com os griots que aprendi a c@ntar tecendo narrativas que se dilatam feito bilros em mãos rezadeiras. E por falar nisso rogai por mim nessas três continhas, minha mãe! O que eu queria mesmo era ter contado hoje a história dos SEIOS DOLOROSOS de Yemanjá. Essa quem me passou foi a negra senhora do post anterior. Mas um dia o maracatu há de deixar! Odô Yá! Odô Yá, Rainha do Mar!
Aqui não existe a estrutura nem pra gente guardar os tambores – sempre eles – mas a forma coletiva como essa falta é gerenciada nos faz parar e lembrar dos porões dos navios. Dos fétidos porões aos chicotes dos feitores tudo eram dores. E tudo foi suplantado pelo toque dos tambores. Tambores que agregaram tribos as mais divergentes unificando a força da nossa gente. Relembrar como os escravizados eram detentores de UMA ALTIVEZ que veio desaguar nisso que o povo da periferia hoje em dia chama de batalha pela sobrevivência.
De um nada material o carnaval vai sendo posto de pé. Daí que sobram e abarrotam as analogias. O dia-a-dia pisando nas esperanças tardias desse povo e ele ainda senta e espera a hora da troca dos instrumentos – aqui são tão poucos para tantos tantãs. Os erês (sempre em bando) na minha visão guardam uma intimidade pulsante com a magia do som ancestral, pois é das mãos desses músicos por osmose que sai o chamamento pro momento tribal. Tambores de maracatu, no meio da rua, num começo de noite não tem conta que dê conta de tanta festa! A falta não deixa de existir é que a descendência desse povo é essa, xirê. É por isso que, após cada ensaio, meus tímpanos saem atualizando AS CONEXÕES DESSE VOCÁBULO com o que acontece quando a festa acalma. Parece que naquele momento o tambor transfigura aquela situação de dor no amor do martelo justiceiro de Xangô. Isso quem me contou foi o meu avô que toda noite dedicava a si próprio, três continhas do seu rosário. Santificado sincretismo, sempre dava um jeito de no seu trancoso samplear a memória de algum orixá. Quem sou eu pra não aceitar.
De tanto ouvir os tambores sua pulsação tem-me feito redesenhar o meu caminho de volta. E nessa minha diáspora suburbana o que é mais bacana é constatar esse modo de ser do meu avô no povo de maracatu. Talvez isso os torne mais generosos e solidários. Num mundo balizado pelo valor de mercado realmente fica inviável validar o que já não há. O maracatu tem tribalizado meu sonho apaixonado pelo rito teatral. Essa sim, é a outra ponta da conta do meu rosário.
Pra terminar vale lembrar que a métrica do meu falar é o linguajar da oralidade que musicalizado imortaliza uma memória mítica. Foi sim com os griots que aprendi a c@ntar tecendo narrativas que se dilatam feito bilros em mãos rezadeiras. E por falar nisso rogai por mim nessas três continhas, minha mãe! O que eu queria mesmo era ter contado hoje a história dos SEIOS DOLOROSOS de Yemanjá. Essa quem me passou foi a negra senhora do post anterior. Mas um dia o maracatu há de deixar! Odô Yá! Odô Yá, Rainha do Mar!




