sexta-feira, janeiro 12, 2007

O Eito que tem Leito Perfeito no meu Peito em Festa

Por traz de uma pilha de tambores muito bem pode-se encontrar o ritmo dengoso de um semblante molhado de amores. É de deixar qualquer um maravilhado vivenciar a azáfama de um espaço aonde o carnaval mora. Aqui nesse maracatu as mesmas mãos que põe cola nos canos são também as conchas certeiras nas quais as baquetas vão se abrigar e ritmar o ritual da batida. Dessa vez, mais uma vez, elas não só vão batucar noutro compasso, como também irão render homenagem ao ritmo dolente da tradição. Por um momento uma teoria sociológica vira tese de alegria memorável. Tradição e renovação dinamicamente nas mãos de um grupo de percussão que anima a comunidade trazendo tempo e memória num só coração.

Aqui não existe a estrutura nem pra gente guardar os tambores – sempre eles – mas a forma coletiva como essa falta é gerenciada nos faz parar e lembrar dos porões dos navios. Dos fétidos porões aos chicotes dos feitores tudo eram dores. E tudo foi suplantado pelo toque dos tambores. Tambores que agregaram tribos as mais divergentes unificando a força da nossa gente. Relembrar como os escravizados eram detentores de UMA ALTIVEZ que veio desaguar nisso que o povo da periferia hoje em dia chama de batalha pela sobrevivência.

De um nada material o carnaval vai sendo posto de pé. Daí que sobram e abarrotam as analogias. O dia-a-dia pisando nas esperanças tardias desse povo e ele ainda senta e espera a hora da troca dos instrumentos – aqui são tão poucos para tantos tantãs. Os erês (sempre em bando) na minha visão guardam uma intimidade pulsante com a magia do som ancestral, pois é das mãos desses músicos por osmose que sai o chamamento pro momento tribal. Tambores de maracatu, no meio da rua, num começo de noite não tem conta que dê conta de tanta festa! A falta não deixa de existir é que a descendência desse povo é essa, xirê. É por isso que, após cada ensaio, meus tímpanos saem atualizando AS CONEXÕES DESSE VOCÁBULO com o que acontece quando a festa acalma. Parece que naquele momento o tambor transfigura aquela situação de dor no amor do martelo justiceiro de Xangô. Isso quem me contou foi o meu avô que toda noite dedicava a si próprio, três continhas do seu rosário. Santificado sincretismo, sempre dava um jeito de no seu trancoso samplear a memória de algum orixá. Quem sou eu pra não aceitar.

De tanto ouvir os tambores sua pulsação tem-me feito redesenhar o meu caminho de volta. E nessa minha diáspora suburbana o que é mais bacana é constatar esse modo de ser do meu avô no povo de maracatu. Talvez isso os torne mais generosos e solidários. Num mundo balizado pelo valor de mercado realmente fica inviável validar o que já não há. O maracatu tem tribalizado meu sonho apaixonado pelo rito teatral. Essa sim, é a outra ponta da conta do meu rosário.

Pra terminar vale lembrar que a métrica do meu falar é o linguajar da oralidade que musicalizado imortaliza uma memória mítica. Foi sim com os griots que aprendi a c@ntar tecendo narrativas que se dilatam feito bilros em mãos rezadeiras. E por falar nisso rogai por mim nessas três continhas, minha mãe! O que eu queria mesmo era ter contado hoje a história dos SEIOS DOLOROSOS de Yemanjá. Essa quem me passou foi a negra senhora do post anterior. Mas um dia o maracatu há de deixar! Odô Yá! Odô Yá, Rainha do Mar!

quinta-feira, janeiro 04, 2007

As sandálias e o Tambor Totem do meu Avô

Nos samplers sincopados dos solados das minhas sandálias, o plano riscado da minha cidade tem-me firmado no descompasso aperreado de uma periferia pendurada em planos. Por aqui quando passa a sintonia chacoalhando o dia-a-dia sempre prenuncia um leve desespero homeopático.

E não é pra menos! Foi por essas bandas que ainda há pouco o sorriso simpático das campanhas - como sempre - desintegrou-se em desafinadas notas sinistras. Notas que não são as do autodidata que rege a percussão do meu maracatu. NOTAS INOMINÁVEIS e indecentes, muito diferente das anotações da negra senhora a soluçar “odô yá, yemanjá!”, dialogando horizontal com a tal da educação popular. Notas que desequilibram e afundam a periferia em projetos de esperança terçã.

O que sempre supera e surte efeito no meu arrasta-pé quando eu me embrenho periferia adentro é que minhas sandálias são danadas pra provocar o canto do bando de erês por onde elas passam.

"Cai, cai sereno / Cai meu destino / Me leva agora / Para brincar com os meninos!"

Cidade tan-tan, é eu ir passando e aquele cardume se dependurando aonde nem espaço nem tempo dão conta desse canto de presente que atende pelo singelo nome de Doum. Eles me seguram assegurando que “Doum é amigo legal, sem Doum eu não posso ficar”. As sandálias saem em descontrole, afinal pra ERÊ TUDO É XIRÊ, mas nesse instante de folia só dá tempo do meu pé tropeçar na craterinha de um descompromisso chamado saneamento básico. O sorriso em coro do bando refaz meu azedume reivindicatório enquanto eles lavam as sandálias que não foram feitas para o banho, muito embora adote os erês e admita ser MÃE DOS FILHOS-PEIXES.

E o cortejo segue os meus passos rumo ao espaço onde o compasso é a mais perfeita simetria das alegrias que emanam da periferia. É que hoje é dia de ensaio. Envolto ainda pelo cardume de erês que agora disputa com a circunferência gigantesca dos tambores, eu faço questão de me perder nesse chão que se reveste em assentamento das diferentes tribos de um micro cosmos chamado maracatu. É o tambor bater e a gente vê uma comunidade em peso se energizar pelos tantãs que, neste começo de noite, na cidade de Fortaleza, têm a mesma força ancestral do velho tambor tribal. Que beleza é bem legal! Então...as sandálias? Viraram adubo desse chão sagrado.