domingo, março 25, 2007

MARACATU - O Esplendor dos Orixás quando Anoitece na Periferia

Ah Cidade sem ladeiras, sabe Olorum o que faz! Imagina se fossem íngremes teus caminhos de onde estou pra onde fincaram a maioria de teus maracatus? Por aqui as loas não rolam ruas abaixo, mas como lavam as angustias represadas pelo dia-a-dia. O Maracatu na periferia é um ponto que balança equilibrando tradição e renovação para que A MEMÓRIA NEGRA conte a história do tempo. O Maracatu é o sol se pondo e a noite imprimindo na pele dos que brincam – ainda que na fantasia de um carnaval – a cor de um tambor tribal. É o maracatu a longa noite iluminando as cabeças que saem das cabaças para compreender a longevidade sonora dos tambores. O maracatu em você Fortaleza corre pelas beiradas e arrasta uma negrada que parece silenciosa. No entanto esse silêncio soa e se esbalda na oralidade dos orikis. E os mais antigos nas comunidades ditas carentes esbanjam essa sapiência pelos poros.

Ainda bem que eu não sei em quantos palmos o seu clitóris foi dividido, meu bem. Sei que quando adentro em cada um deles me reconheço nessa festa que passou pelo GRIOT DO MEU AVÔ e desaguou na cor do meu tambor. As partes íntimas dessa cidade são que nem a palma das mãos dos ogans e sua relação orgânica com os tantãs. Por isso que na periferia, Fortaleza, exista ou não a compreensão da preservação, aquele chão só pode ser sagrado. O reino dos orixás tem endereço e se identifica plenamente, principalmente quando a noite vem. Em Fortaleza as noites da periferia são mais negras. Nelas os tambores que magnificaram meus erês na avenida, agora dão vida a outras entidades. Nessas comunidades – ápice do meu entusiasmo – o bater tambor é louvação a Xangô ou licença de Exu. Mesmo que o toque seja apenas um ensaio de maracatu. Saiba ou não da procedência dessa história, a periferia – resistente - toca e atualiza a memória de uma cultura afrodescendente.

Essa é uma narrativa que nunca termina. Filho do meu filho, gestamos e parimos mais um na boquinha da noite. Mais uma boca pra falar, contar e alimentar essa tradição que se renova DINAMICAMENTE. Um maracatuzinho de erês é para que os porquês fluam por uma oralidade que se sustenta. Um maracatuzinho é somente o resultado de uma semente em solo fértil, pronto para encorpar no fundo da alma a palma da mão nos tantãs. O griot que encantou o meu avô, já sabia que o filho do meu filho teria cor de tambor. Mais um maracatuzinho de erês na periferia, somente porque é aí cidade que a minha verdade dialoga com você. Um maracatuzinho, sempre as sextas, à boquinha da noite pra minha alegria, num pedaço qualquer da periferia. Laroiê!

sexta-feira, março 02, 2007

Águas em Março e o Batuque da sede dos Erês

Cidade, em você as palavras sempre se mantêm aquém...mas quem meu bem pode melhor desnudar o que está por baixo de rendas e na rede? As minhas mãos bobas passeiam por essa cavidade lagoeira que é o teu monte pubiano estupefato e tão só, mas como o amor é generoso faz das varandas escorrerem as águas represadas e as áreas de risco. Eu na periferia já bebi dessas águas em marços antigos. Ora teus pêlos pubianos são tão jovens não suportam um descaso com cara de espoliação tardia e contínua. Chuva no subúrbio é o ícone que sanciona - sem pudor - o tempo do desequilíbrio. Mal o carnaval do calendário passa a chuva arrasa e lava teu mênstruo estéril.

Ainda bem cidade tambor que a passagem dos meus erês desfilando por você ensopou de felicidade o que só o tempo conquista. Foi uma bela vista vê-los tamborilar brincando com a marcação do meu maestro autodidata. Aqui a redundância se faz necessária, mais que isso, impõe-se. É essa felicidade de uma festa datada quem vai reerguer as casas que mais parecem castelos de areia no mar. O dobrado das palavras – único porta-estandarte do meu teclado – é na intenção de tremular como só um batuque de maracatu sabe fazer, pra dizer que o carnaval é um ESTADO DE ESPÍRITO. Se as águas encharcam até a mais indescritível das ausências, os tambores sempre vão restaurar a presença vital da folia do carnaval. Pulsão essencial com a qual vamos deletar sanções de desigualdade a fim de restabelecer o equilíbrio em você cidade.

Em março todas as águas vêm beber o que uma pedra de gelo teria saciado na hora em que os erês desfilavam. Felizmente OS TAMBORES parecem que salpicavam ao comando de mãos tão jovens elevando o suor da testa aos encantos de Oxum que o transformava serenamente em água doce. E o cortejo como na vida seguia, ia ofertando uma bela vista do que seria essa folia vinda de antes dos nossos avós. O mês se inicia e o vexame principia. A cidade tambor submerge, mas a alegria dos tantãs finca pé. Muito além de um paliativo com hora e data pra acontecer, a festa real do carnaval alça o cavalo de Ogum e paira sobre as crateras abertas. Quem diria Fortaleza que precisaria de tanta água para o perímetro urbano todo sentir a correria do dia-a-dia da periferia.

Minha aguada cidade amada tomara que agora nessa hora, a sede dos erês esteja brincando na coroa do céu de Olorum. É muito importante, eu diria até – capital – que a solidariedade do carnaval não se dissolvesse. É essa congregação de forças que faz a gente perceber que a magia passa pelas nossas mãos. Que suor e lágrimas são líquidos da mais pura essência da existência humana. Que apesar dos deslizes dos “castelos de areia” e sobretudo apesar das autoridades, a cidade de Fortaleza contou com dez associações de maracatus nesse carnaval. Sendo o carnaval um estado de espírito seria essencial pensar que grande parte desse patrimônio mora na chamada área de risco. Falo isso cidade faceira porque “eu vi MAMÃE OXUM na cachoeira!”